Psicanálise tem de ser democratizada. Não pode ser só para burguesia

Psicanálise tem de ser democratizada. Não pode ser só para burguesia

Pesquisadora Elizabeth Ann Danto fala sobre a psicanálise como instrumento de justiça social e do mito de que Freud era “apolítico”que existia ao redor dele’

BdF – A visão de que a psicanálise é elitista e restrita à burguesia deve ser desconstruída para se entender esse campo do conhecimento como instrumento de transformação da sociedade para a justiça social. É o que defende a professora de história da psicanálise e saúde mental urbana Elizabeth Ann Danto.

Professora emérita de serviço social pela Hunter College da Universidade da Cidade de Nova York, Danto é autora do livro As Clínicas Públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social, 1918-1938, uma extensa pesquisa sobre um movimento de psicanalistas europeus entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que defendia a gratuidade e democratização do atendimento psicanalítico como necessidade tanto quanto o direito à saúde física.

Investigando documentos da época e relatos orais, Danto recupera um lado negligenciado de Freud, de compromisso com a criação de um sistema de atendimento psicanalítico voltado para as classes mais baixas. Sua obra desconstrói a ideia de que o cuidado com a saúde mental é privilégio das elites e que Freud não estava atento à conjuntura política de seu período.

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Seu questionamento sobre a psicanálise como um campo elitista começou na época do doutorado, há mais de trinta anos. “Foi quando percebi que isso era fruto da forma com que líamos Freud, com as lentes conservadoras dominantes do pós-Guerra Fria. O que eu fiz foi reformular essa perspectiva e dizer: vamos começar a ler esse material a partir da lente da justiça social. E tudo se abriu.”

Em visita ao Brasil neste mês de setembro para o lançamento do livro, traduzido para o português e publicado pela Editora Perspectiva, a autora concedeu entrevista ao Brasil de Fato. Na conversa, Danto fala sobre a dimensão social da psicanálise, o mito de um Freud “apolítico” e a investigação sobre o trabalho pedagógico e psicanalítico de Anna Freud, a quem classifica como uma pensadora subestimada.

Seu livro As Clínicas Públicas de Freud discorre sobre o desenvolvimento da psicanálise e do movimento de clínicas gratuitas na Europa após a Primeira Guerra Mundial, que ofereciam tratamento psicológico para a população pobre e socialmente marginalizada e tinham o intuito de criar um caminho de transformação da sociedade. Qual foi a importância do movimento de clínicas gratuitas para o desenvolvimento da psicanálise no início do século 20 e como isso se relaciona com as forças progressistas do pós-guerra na Europa?

Boa pergunta. Eu diria que, na verdade, foi o contrário. Na Áustria, principalmente, onde Sigmund Freud estava, o fim da Primeira Guerra Mundial [em 1918] coincidiu com o fim do império dos Habsburgo, que reinou sobre mais da metade do que hoje conhecemos como Europa por quase 700 anos. Ao mesmo tempo, mudanças profundas e uma radicalização estavam surgindo em todo o império. Não era mais possível manter esses países sob a monarquia, porque as sementes da social-democracia já haviam sido plantadas e estavam crescendo, e esse era o caminho para o futuro.

Uma coisa frequentemente subestimada foi a consciência de Sigmund Freud sobre o mundo político mais amplo que existia ao redor dele. Muita gente promoveu uma ideia de que Freud era apolítico, no sentido de que não tinha consciência. Mas ele tinha muita. Quando era universitário, ele pensou em estudar direito, estudou cultura, tinha fascínio por movimentos sociais. Quando você começa a olhar para isso, você percebe que a narrativa de Sigmund Freud isolado no topo da montanha não se sustenta.

Pouco antes do fim da Primeira Guerra Mundial, cerca de dois meses antes do armistício, tudo isso se concretiza em Budapeste, no quinto encontro da Associação Internacional de Psicanálise. Freud fez um discurso incrível, em que afirmou que a consciência da sociedade despertaria. Ele odiava a monarquia, então o discurso dele fez parte do começo da transformação da Europa central e ocidental com o fim do império dos Habsburgo.

Quando ele afirma que a consciência da sociedade vai despertar, ele está dizendo que o povo não vai mais tolerar esse tipo de opressão advinda dessa sociedade absolutamente hierárquica e controlada da monarquia.

Ele também falou para esse público que os psicanalistas precisavam estar prontos para isso e deveriam participar, senão a psicanálise ficaria isolada e marginalizada. E ele já previa ali todo um movimento psicanalítico – e que efetivamente executou.

O título desse ensaio de Freud é Novos Caminhos na Terapia Psicanalítica. Nele, ele diz: “Algumas coisas que vou dizer podem não ser conhecidas de vocês, mas tratemos de nos familiarizarmos com elas. Precisamos prestar atenção ao que está acontecendo para sobreviver. E para isso, precisamos nos alinhar à social-democracia”.

Foi ali que Freud disse que, no futuro, o tratamento psicanalítico seria gratuito. Isso muda a narrativa de uma psicopatologia individual para uma narrativa de patologia social. Ele não fala de indivíduos com transtornos mentais, mas sim de maneira mais ampla sobre mulheres que sofrem privações, crianças em situação de rua. Ele está falando de patologia social. E afirma que é a isso que a psicanálise precisa prestar atenção a partir daquele momento.

O público que foi de toda a Europa [para participar do encontro] ficou muito inspirado com essas palavras e levou a reflexão para seus países, cidades e comunidades e começou a desenvolver clínicas gratuitas sem esperar pelo Estado.

Freud sabia que o Estado social-democrata, em algum momento, chegaria a esse momento – e, de fato, chegou. Mas, naquele momento, entre 1920 e 1927, cabia aos analistas tomarem a iniciativa. E foi o que eles fizeram.

Freud acreditava no direito da população pobre a tratamento de saúde mental. Na sua opinião, por que, apesar disso, ao longo do tempo acabou se fortalecendo a narrativa de que a psicanálise é elitista?

Eu mesma me perguntei isso muitos anos atrás. Uma das coisas que me despertou para esse trabalho foi meu fascínio pela psicanálise, mas, ao mesmo tempo, eu me via como ativista. Na época, eu era assistente social, e sou filha dos anos 1960. Como eu podia me ver como ativista e, ao mesmo tempo, ter a impressão de que a psicanálise fazia sentido? Era incompatível para mim.

Naquele momento, eu estava fazendo meu doutorado e comecei a dar aula sobre políticas de bem-estar social. Foi então que percebi que isso acontecia pela forma como estávamos lendo Freud, com as lentes conservadoras dominantes do pós-Guerra Fria. O que eu fiz foi reformular essa perspectiva e dizer: vamos começar a ler esse material a partir da lente da justiça social. E tudo se abriu.

Na história, houve dois grandes eventos cultural e historicamente traumáticos. Um foi Hitler. Se Hitler não tivesse existido, não sabemos para onde a psicanálise teria se desenvolvido. Mas a sociedade e os indivíduos tendem a se fechar depois de um trauma como o do exílio. E aqueles que foram para os Estados Unidos encontraram o macarthismo e J. Edgar Hoover, que os perseguiam por serem de esquerda e judeus.

Então, para sobreviver a Hoover nos Estados Unidos, eles reprimiram essas primeiras experiências e atividades. E não foram sempre bem aceitos na psicanálise hegemônica, que tende a ser mais conservadora nos EUA. Mas foram bem-recebidos pelas agências de serviço social, onde conseguiram trabalho.

Mas existem contradições profundas nisso, porque a teoria psicanalítica é uma teoria de emancipação. Foi isso que eu entendi há mais de trinta anos.

No Brasil, o debate sobre saúde mental e clínicas públicas tem se popularizado desde os anos 1970, principalmente em momentos de crise. A senhora vê essa relação entre momentos de crise e o aumento da procura por tratamento de saúde mental em outras partes do mundo?

Infelizmente, não conheço bem o Brasil. Em Nova York, houve um surto de suicídios entre policiais. E isso tem despertado as pessoas, porque a polícia tem essa armadura psicológica, uma posição na sociedade. E, claro, isso vem com autoritarismo e o uso de armas. Mas por que houve esse surto de suicídios? A resposta, em Nova York, foi mostrar para os policiais que é aceitável buscar tratamento psicológico quando se sofre com depressão, ansiedade e assim por diante.

Mas as leis são muito contraditórias, porque, se você é policial, você jura defender a lei. Mas e se parte da sua depressão vem de um vício? Nesse caso, você não pode usar seu plano de saúde para tratar o vício, porque isso significa que você, policial, cometeu um crime. Então, hoje, essas leis estão sendo questionadas para permitir que os agentes possam buscar tratamento psicológico.

Então existe, sim, uma pressão. E esse é só um exemplo.

Em uma entrevista, a senhora falou que seu livro contribui para o debate atual sobre saúde mental urbana nos Estados Unidos. Como essa discussão evoluiu desde o lançamento do livro nos EUA, em 2005?

Na psicanálise em si, a Associação Norte-americana de Psicanálise era muito conservadora. Ao contrário de associações da categoria em outras partes do mundo, ela havia adotado uma política de só permitir o exercício da psicanálise por médicos. Freud odiava isso. Na análise leiga, o que você precisa é a formação psicanalítica, sua própria experiência de análise e a mente aberta.

Eu sou assistente social de formação e trabalhei na área cerca de 20 anos antes de ir para a academia. Depois que meu livro saiu, nos cinco ou seis anos seguintes – não quero me dar todo o crédito por isso, mas ainda assim –, a presidência da associação psicanalítica passou a um profissional do serviço social.

Os profissionais do serviço social se alinham a um modelo diferente do modelo médico. O modelo médico é: sintomas, diagnóstico, prescrição de tratamento. Já os assistentes sociais olham para os sintomas de forma dialética: pessoa e meio são inseparáveis.

E, em dez anos, passou-se de um modelo do atendimento clínico particular para uma defesa das clínicas comunitárias. Então mudou bastante.

É possível traçar um paralelo entre saúde mental nos anos 1920 e 1930 até a ascensão dos regimes nazista e fascista na Europa e o crescimento do conservadorismo e de governos de extrema direita hoje, não só no Brasil mas em outras partes do mundo?

Acho que existem muito mais transtornos mentais no mundo do que reconhecemos. Isso tem a ver com o estigma.

Uma das formas de a burguesia reforçar o estigma é atribuir tudo que acontece de ruim a pessoas “loucas”, sempre individualmente. Isso retoma o discurso [de Freud] de 1918, que mudou – não completamente, mas em parte – o foco da patologia individual para a patologia social.

Eu acho que alguns desses líderes dialogam com uma fúria não reconhecida e narcisista que existe entre muito mais gente do que se consegue admitir. E eles estão tomando o controle – ou pelo menos parece que estão.

Temos aí esses líderes que dão a essas pessoas com transtornos mentais permissão para explodir. Acho que foi isso que fizemos. E parte do que precisamos fazer agora é acordar e admitir que precisamos abrir muitos mais centros de atendimento psicológico, pois são pessoas que precisam disso.

Nós ficamos cegos para essa situação, mesmo nós que trabalhamos com o serviço social nas comunidades. Eu achava que os anos de fascismo tinham acabado. Achei que, nos EUA, J. Edgar Hoover, o macarthismo e [o presidente Richard] Nixon tinham ficado no passado. Achei que tínhamos avançado com Barack Obama. Mas, claramente, eu me enganei.

Mas também temos que ter cuidado com nosso próprio elitismo. Uma repórter escreveu outro dia no [The New York] Times que “precisamos de um movimento social para nos livrarmos de Trump”. Mas espera aí. Nós tivemos um movimento social. O movimento social nos trouxe Donald Trump. Pode não ser o movimento social que gostamos, mas é um movimento social.

E o que esse movimento social fez foi causar a irrupção de uma fúria inacreditável, e com certeza a exposição – ao menos na minha visão – de transtornos psicológicos e psiquiátricos até então ignorados.

Mas precisamos entender também nosso lugar de privilégio, todo dia, de todas as formas, na batalha contra esses chamados “líderes”.

Falando um pouco sobre sua pesquisa sobre Anna Freud, qual é o papel da psicanálise na educação – política, sexual, social, formal?

Estou investigando as ideias e a reflexão dela há cerca de três anos. Ela é muito subestimada como pensadora. Temos uma imagem dela como filha do pai dela, e de vez em quando alguém diz que ela “é uma psicanalista por mérito próprio”. Isso é absolutamente inadequado, claro, pois ela escreveu O Ego e os Mecanismos de Defesa, que é um dos principais livros que todo estudante de psicanálise lê. E a linguagem dela se disseminou tanto quanto a do pai – todos nós usamos termos como “negação” ou “racionalização”. Isso é Anna Freud! Nós esquecemos disso.

Ela teve uma influência profunda na análise de crianças. Havia muitos movimentos progressistas nos EUA, com o “aprender fazendo” de John Dewey e ideias progressistas para a educação. Uma educação embasada pela psicanálise – que é o que a interessava – eram formas de educação que não eram de modo algum tão reguladas quanto o modelo prussiano ou americano, mas também estavam atentas às etapas de desenvolvimento da criança.

Ter sensibilidade às etapas de desenvolvimento da criança também é importante para os pais, responsáveis e cuidadores, porque eles próprios terão que aprender a deixar a criança ir para a escola e ter sua própria criatividade. Tudo isso também respeitando normas sociais, aprendendo a cuidar do próprio corpo, aprendendo a autorregulação. Anna Freud fez vários experimentos nesse sentido que foram muito interessantes.

Claro, com algum tipo de orientação, com conhecimento acadêmico, mas o desenvolvimento e autorregulação devem ser permitidos.

Para finalizar, como a psicanálise pode contribuir para a transformação da sociedade e para a justiça social hoje?

Em diversos níveis. Acho que acreditar na capacidade humana de autorregulação é muito importante.

Wilhelm Reich, por exemplo, acreditava especificamente em uma analogia fixa entre a psicanálise, como alívio da neurose das pessoas, e o triunfo da esquerda, como alívio para o povo contra a opressão burguesa.

Mas precisamos ter consciência sobre a extensão do nosso trabalho com pessoas individualmente, em famílias e grupos, para ajudar no alívio de neuroses para que elas possam se tornar participantes mais ativos de nossas democracias – ou a extensão de uma atuação política ativa para a transformação social, o que incluiria exigir a expansão da cobertura de atendimento para saúde mental, melhores condições de moradia e todas essas coisas que defendemos.

Não estamos em posição de escolher. Temos que fazer tudo isso. Podemos trabalhar com indivíduos o quanto quisermos, mas se o meio não mudar, manteremos os mesmos controles.

 

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