Cena Paulistana 14

Por Michel Labaki em: 26/01/2020

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Tenho aproveitado minhas idas e vindas por São Paulo para observar, analisar, conversar com as pessoas e até curtir um pouco essa cidade agressiva e acolhedora ao mesmo tempo. Cidade tão maltratada, tão excludente e, às vezes, tão inclusiva.

Anteontem tive uma reunião de trabalho no centro da cidade, num escritório perto da Receita Federal, um pouco longe das estações do metrô, República, Luz e São Bento.

Saí da reunião por volta das 18 h e optei por ir até a estação República, caminhando por quase toda a avenida Ipiranga até chegar lá. A estação República é a confluência das linhas vermelha e amarela, sendo a linha vermelha a mais lotada de todas, pois atende a populosa e enorme zona leste.

Cheguei lá, pelo horário, uma multidão tentando atravessar as catracas de acesso. Pensei um pouco e resolvi esperar alguns minutos até o movimento diminuir. Não quis arriscar viajar em pé.

O poder público tem tamanho medo das pessoas sentarem e conversarem que em nenhuma estação de metrô há bancos para as pessoas descansarem um pouco. Em pouquíssimas estações há algumas cadeiras, mas apenas próximas ao embarque. Antes das catracas nada de cadeiras ou bancos.

Aí, o que fiz? Não quis sair da estação para fazer hora e resolvi sentar no chão ao lado de uma loja.

Como sou um senhor de “boa aparência” e não é muito comum senhores de boa aparência sentarem-se no chão, imediatamente uma senhora veio me perguntar se eu estava passando bem. Agradeci, falei que estava apenas um pouco cansado.

Logo depois outra senhora me perguntou a mesma coisa. Dei a mesma resposta. Em seguida outra senhora se preocupou e perguntou se eu estava precisando de algo. Agradeci.

Um pouco depois, um segurança do metrô veio me perguntar se eu estava passando bem, se precisava de algum apoio. Respondi que estava apenas um pouco cansado e que não precisava de nada.

Passaram-se apenas alguns (poucos) minutos e eu já fazia parte da paisagem da estação. Ninguém mais se preocupava com aquele senhor sentado no chão.

Não sei porque, mas naquele momento lembrei-me do livro Memórias do Cárcere. Graciliano Ramos foi preso durante o Estado Novo e escreveu um livro a respeito. No livro ele conta que um determinado dia foi transportado de um presídio para outro e ao dar entrada no novo local ouviu de um funcionário:

— Aquele ali é um carceeiro velho.

Ou seja, com pouquíssimos meses na prisão, o intelectual e escritor Graciliano Ramos já incorporara o jeito de quem a vida inteira passara por prisões.

De alguma forma em poucos minutos, eu sentado naquele chão da estação de metrô, já fazia parte da paisagem.

Resolvi me levantar e ir embora, pensando no fato de tudo ser considerado normal depois de algum tempo.

Lembrei que vi na avenida Ipiranga inúmeras pessoas morando na rua, inúmeras lojas fechadas na outrora pujante Avenida Ipiranga, que faz parte da música Sampa do Caetano Veloso.

“Alguma coisa acontece no meu coração.

Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João. ”

Há na verdade uma luta não declarada. Inúmeras pessoas são solidárias com as pessoas em situação de rua, com os sem teto, com os ambulantes. Outras tantas são indiferentes, e consideram que fazem parte da paisagem. Só e tão somente parte da paisagem urbana. E há aquelas que resolvem agredir e colocar fogo e matar essas pessoas.

O poder público, nesta época de Bolsonaro, Doria e Bruno Covas, tem uma visão e atuação apenas burocrática, repressiva, não inclusiva.

Mas, esse pesadelo vai passar.

Apesar de tudo, São Paulo vai melhorar. Vai voltar a ser uma cidade de todos os povos, democrática.

Tenho esperança.

 

 

 

 

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